Geralmente,
todo mundo pensa que pedalar é fácil e que, como é só empurrar
os pedais para baixo alternadamente, o futuro ciclista acha
que já sabe pedalar e pode começar a pensar na periodização
de seu treinamento visando essa ou aquela competição.
É uma tradição no ciclismo, que no Brasil foi esquecida,
principalmente pela escassez de técnicos especializados
em ciclismo e mountain bike nas últimas décadas. É um velho
ensinamento, que acabou ficando para trás porque todo ciclista,
profissional ou não, quando começa a temporada, depois de
um mês sem praticamente tocar na bicicleta, deve voltar
aos treinamentos específicos girando - ou seja, pedalando
numa cadência (pedaladas por minuto) mais elevada. Era comum
nas bikes de estrada substituir a catraca por um pinhão
fixo, como nas bikes de pista - mantendo uma única relação
leve, geralmente perto de 42x18 dentes.
Na periodização do treinamento, a fase do giro deve ser
a primeira do treinamento, antecedendo a de resistência.
É dada ênfase ao giro, à adaptação ao movimento e à sinestesia
(a percepção do movimento, desenvolvendo o sistema neuromuscular).
Essa fase normalmente dura um mês. No final dessa fase,
deve existir a transição com a fase de resistência e do
treinamento mais pesado, alternando os treinos de longa
distância com os treinos de giro. Para quem vem do sedentarismo,
deve-se esticar o giro por mais tempo - assim como para
aqueles que ainda não conseguiram desenvolver totalmente
a pedalada redonda. É como na musculação. Quando você nunca
fez ou ficou muito tempo parado, precisa passar pela adaptação
ao movimento, utilizando carga mais baixa nos aparelhos.
Somente depois que os músculos estiverem preparados e sabendo
como fazer a força, você pode executar os movimentos com
uma carga maior.
Giro certo
Imagine-se
subindo uma longa escada. Se os degraus forem baixos, com
um passo normal, você conseguirá subir sem muito esforço
e por bastante tempo. Se os degraus forem altos e você quiser
subir rápido, não chegará lá em cima sem ter que parar e
tomar fôlego. Se conseguir chegar, estará todo dolorido
e com a freqüência cardíaca nas alturas.
O mesmo acontece com o ciclismo quando retornamos aos treinamentos
depois de um grande período sem pedalar (normalmente, por
mais de um mês; às vezes, anos). Nesse caso, depois de tanto
tempo longe dos pedais, se você quiser sair pedalando como
quando estava "treinadaço", com transmissão pesada,
vai acabar herdando uma dor nos joelhos - e outras por todo
o corpo. Os músculos não estão mais acostumados com o esforço,
estão um pouco atrofiados.
Provavelmente, você vai se desestimular mais uma vez porque
voltou com tudo - achando que só porque um dia pedalou forte,
pedalará sempre.
Esse primeiro mês de giro é o mais importante para todo
o resto de sua vida ciclística. É nesse período que você
aprenderá a pedalar, percebendo o movimento.
Mão leve nos shift-levers!
Na
volta às pedaladas, a relação de transmissão deve ser leve,
de preferência acima das 100 ppm (pedaladas por minuto).
Sem forçar, fluindo fácil.
Os pneus devem ser, de preferência, de baixo peso e slicks
(lisos) no caso de uma mountain bike - e calibrados com
a pressão máxima. Sendo assim, eles facilitarão a inércia
da bike, segurando-a menos no asfalto.
Na traseira do selim, normalmente o giro é melhor. Se sentarmos
mais atrás do selim, giraremos com maior facilidade. A elevação
das pernas ficará facilitada - tanto é que é mais fácil
girar numa bike tradicional de ciclismo ou numa mountain
com ângulo do tubo de selim em torno dos 73 graus contra
78 graus numa específica para triathlon. Esqueça a distância
e a velocidade média do treino, que deve durar de uma a
duas horas no máximo. É basicamente um passeio com transmissão
bem leve, alternado com os exercícios educativos - ou seja,
momentos em que estaremos atentos em cada uma das fases
da pedalada. O importante é a qualidade. Faça tudo com muito
prazer, procurando sentir tudo o que acontece com a musculatura
das pernas.
Pedalada redonda
Educativo 1: retorno
Na
passada dos pés pela parte de baixo da pedalada, você deve
sentir os pés como se estivessem limpando as solas dos sapatos
num tapete, tirando-lhes a terra. Faça força somente na
parte de baixo da pedalada (ou seja, uma perna impulsiona
a outra para cima). Faça esse educativo em três séries de,
no máximo, um minuto por treino, alternado com os educativos
2 e 3.
Educativo 2: puxada
Concentre-se
e comece a perceber os joelhos subindo e passando pelos
pontos altos da pedalada. Faça com que eles subam ao máximo,
sem que o movimento fique pontudo, quebrado. A pedalada
vem de baixo e de trás - e não somente de baixo, como a
gente acredita. Procure impulsionar a bicicleta somente
com o movimento da puxada das pernas, sem fazer força para
baixo. Não desanime se parecer que a bike não sai do lugar.
Lembre-se que você está fazendo somente uma parte da pedalada.
Sinta o movimento e perceba que, para aumentar o giro, é
fundamental a ascensão das pernas. Como esse exercício utiliza
um grupo muscular maior, tente completar um minuto de tiro.
Lembre-se: o importante é sentir o movimento e não buscar
a performance máxima. Se pensar nisso, estará acumulando
muito ácido lático nas pernas.
Educativo 3: chute
Da
mesma forma e intensidade dos educativos anteriores, perceba
somente a fase da pedalada em que, após a perna se elevar,
você "chuta" alternadamente com cada uma das pernas,
preparando-as para a compressão.
Apesar de serem considerados "pontos mortos" da
pedalada, os pontos alto e baixo devem ser sentidos e observados.
Eles são a perfeita união entre a compressão e a puxada
das pernas, fazendo com que a pedalada fique redonda e perfeita.
A compressão é a única fase em que você não precisa treinar,
pois é a que você fez a vida inteira depois que aprendeu
a se equilibrar na bicicleta.
Teste de cadência máxima: tiro de 10 segundos
O
trajeto deve ser em asfalto o mais plano possível - e, de
vez em quando, em quatro vezes por treino. Quando uma pequena
descida embalar naturalmente, aumente o giro ao máximo,
progressivamente e com pouco esforço, mantendo a pedalada
redonda. Esse sprint deve durar, no máximo, dez segundos.
A relação de marchas deve ser tal que permita um aumento
de giro rápido e, no final do tiro, você "perca os
pedais" (não consiga mais girar). O ideal é adquirir
um ciclo-computador que informe a cadência, como o Sigma
1400 ou o Shimano Flight Deck.
Perceba que, quando realizamos o tiro de dez segundos, se
a pedalada não está certa, o giro não aumenta e a pedalada
fica falhada. Está aí um problema de coordenação. Procure
lembrar dos educativos acima sempre que isso acontecer.
Lembrar do joelho alto passando enquanto a outra perna "limpa
os pés no tapete". Lembrar do pé chutando enquanto
o outro está lá atrás. Pense em tudo ao mesmo tempo. E ainda
pense tudo isso circular!
Batatas espremidas
Outro
educativo para a pedalada ideal é a contração das batatas
das pernas durante a aceleração, também conhecidas como
panturrilhas ou gastrocnêmios. Essa contração não deve se
estender por muito tempo. São poucas pedaladas, somente
no momento de aceleração. Só um atleta treinado conseguirá
realizar esse movimento por bastante tempo, usado muito
em situações de pedalada ao máximo. Ela deve ser utilizada
para acelerar. Ao atingirmos nossa rotação máxima, devemos
procurar a manutenção do giro, relaxando as "batatas"
e soltando o movimento.
Sinta a perna inchar, sinta os músculos das coxas irrigados,
trabalhando ao máximo. Essa sensação da perna "cheia"
é sentida, sobretudo, na elevação da perna. E termina no
final da compressão.
Pode parecer difícil, mas é um exercício de coordenação,
que aos poucos passará para seu subconsciente - sendo, depois
de um tempo, automático. Mesmo um atleta experiente, quando
volta às pedaladas ou quando está necessitando da máxima
performance, precisa de concentração.
Organizando os tiros
1.
Os educativos podem ser inicialmente feitos com rotação
mais baixa. Aumente a transmissão, utilize uma marcha um
pouco mais pesada e confortável do você utiliza quando busca
os 100/110 ppm (pedaladas por minuto) - até que o objetivo
seja alcançado (até que você consiga sentir somente a parte
da pedalada do educativo).
2.
Faça força somente na fase da pedalada mentalizada naquele
momento, completando o resto do ciclo sem força alguma.
Perceba que cada "pedaço de pedalada" utiliza
músculos diferentes. Após alguns segundos, você os sentirá
"queimando", como na musculação. Por essa razão,
não exceda mais do que um minuto em cada exercício. Se não
der para fazer um minuto de exercício, no mínimo execute
vinte segundos. Para ajudar, conte mentalmente 1-2, 1-2,
1-2, relacionando a cada uma das pernas. Cuidado para não
se machucar fazendo muita força. Lembre-se: o importante
é sentir e fortalecer aos poucos os músculos, que normalmente
não são bem trabalhados. Um exemplo: quando fizer o exercício
do chute, você sentirá o músculo tibial, o que fica à frente
e ao lado da canela. Esses exercícios servem também para
que você aqueça toda a musculatura antes de um treino ou
competição.
3.
É até uma redundância, mas é sempre bom falar: faça muito
alongamento antes e depois do treino, com calma e cuidado.
Se você ainda não sabe como, acesse meu texto em www.andersonbicicletas.com.br
(clique em anderson magazine/preparação física/alongamentos).
4.
Para a realização desse treino, certifique-se de que os
pés estão bem fixos e de que o calçado está apertado ao
máximo, deixando os pés justos dentro das sapatilhas. No
caso de firma-pés, que as correias estejam apertadas ao
máximo (sugiro que invista num bom par de pedais de encaixe
e sapatilhas).
5.
Portanto, o treino se desenvolve por, no mínimo, uma hora
e deve ser organizado da seguinte forma:
a. alongamento
b. abdominais
c. sair para pedalar buscando um trajeto o mais plano possível,
numa cadência, se possível, entre 100 e 110 ppm durante
pelo menos quinze minutos (ou até sentir-se bem aquecido).
6.
Buscar um plano (ou, de preferência, uma subida muito leve),
encontrar uma cadência e transmissão confortável e começar
pelo exercício da fase de retorno ("limpar os sapatos
no tapete"), com duração entre 20 e 60 segundos.
7.
Se, durante o exercício, a transmissão for insuficiente,
ou seja, muito leve, recomendo um falso plano para o tiro.
Após cada tiro, faça uma recuperação livre até sentir-se
pronto para outro tiro. Essa recuperação é uma volta ao
giro de 100/110ppm.
8.
Da mesma forma, faça o exercício da puxada e depois o do
chute, sempre alternando com o giro de 100/110ppm. A compressão
você já faz desde que aprendeu a pedalar. Não é necessário
fazê-la.
9.
Repita mais duas vezes cada exercício.
10.
Para colocar em prática o giro máximo, aguarde uma "embalada"
natural do trajeto, geralmente numa pequena descida, e realize
três sprints de dez segundos, buscando o giro máximo. Observe
a cadência máxima pedalando sentado. Faça, no início do
giro máximo, a contração das batatas das pernas e perceba
a diferença.
11.
Volte aos 100/110 até completar o treino.
Giro balanceado
Somente
assim você atingirá, depois de muito treino e percepção,
a pedalada ideal e um giro inacreditável. Se fizer a coisa
certa e tiver talento, chegará a mais de 200 ppm. O giro
controlado economiza energia, levando-o mais longe e mais
rápido.
Não estou dizendo que você deva pedalar sempre em cadência
elevada, como Lance Armstrong, que pedala sempre entre 100
e 110 ppm. Cada um se adapta a uma cadência mais confortável,
otimizando a relação rotação/potência. Jan Ulrich, o alemão
campeão do Tour de France 97, que fez frente a Armstrong
em 2001 e quase o vence em 2003, pedala com a transmissão
bem pesada - e, é claro, numa cadência bem menor, algo em
torno de 70 a 90 ppm. Comparando esses dois atletas, a potência
de ambos em watts é praticamente a mesma. Mas, para Ulrich
e Armstrong terem sucesso em suas filosofias, ambos têm
que realizar a pedalada perfeita.
O teste da cadência máxima ajuda a definir se a sua pedalada
está evoluindo ou não. É como uma roda de automóvel, por
exemplo. Se estiver desbalanceada, não conseguirá atingir
uma alta rotação. No caso da pedalada, é a mesma coisa.
Se pedalarmos com muita ênfase, empurrando os pedais para
baixo como a grande maioria ou pensando somente na puxada,
estaremos fazendo com que a pedalada fique quebrada e não
conseguiremos elevar a rotação. Somente é possível passar
dos 200 ppm com a pedalada redonda - ou seja, com a mistura
ideal entre a compressão, a "limpada no tapete",
a "puxada" e o "chute".
Boa temporada para todos - e, é claro, com muito giro no
início e uma longa e sólida época de base!
Cleber
Ricci Anderson
|